A Deusa está no Outro

Nestes primeiros dias de Fevereiro, tenho vindo a reflectr sobre a natureza desta estação em que muitas culturas diferentes espalhadas pelo mundo parecem celebrar o mesmo processo de passagem da escuridão para a luz, do frio para o calor, do repouso invernal para o frensi primaveril. A promessa de uma vida florescente. Uma promessa, dizem-nos os mitos galeses, fundada no caldeirão de Ceridwen, no fogo tendido por Brigid. Toda a vida, diz-se, vem de uma espécie de Ventre do Ser. É, afinal, apropriado que atribuamos a origem da inspiração, da paixão e da vontade de criar a esse mesmo útero sempre grávido.

Mas o que dizer quando o Divino Feminino do mito e da sabedoria, e especialmente das actuais práticas de revivalismo telúrico, recai na maternidade como a razão derradeira de ser da mulher? E para recuarmos a práticas rituais ainda mais remotas na história do pensamento, uma espécie de maternidade que permanece submissa e sem vontade, mesmo quando confrontada com abusos. A Terra chora com séculos de hybris humana, mas ela certamente não continuará a perdoar e a esquecer para sempre. Já é tempo de vingança para a Mãe Gaia.

Certamente todos conhecem Athena e Minerva, e alguns até Brigid, que também está familiarizada com o fogo da forja e com os esforços marciais. Mas assim que Ceridwen grita de raiva quando os seus planos de oferecer Awen ao seu filho encontram o fracasso, a primeira reacção de muitas pessoas é a de repugnância. Tratando-se de uma deusa, a sua raiva está fora de tom; ela é mas é birrenta, queixam-se. E tal como se dizia que a sua bela filha estava destinada a uma vida descuidada, muitas deusas guerreiras e sábias têm um atributo interessante: o da virgindade. Não importa quantos rodeios queiramos dar em torno do assunto (o trocadilho é intencional), os arquétipos mais difundidos da feminilidade giram em torno da fertilidade, da disponibilidade para a luxúria masculina, e, enfim, da maternidade. E depois da menopausa, a outrora donzela e agora mãe tornar-se-á uma anciã. Sempre e somente cisgénero, claro está.

Como ateu ocasional com um dom de fomentar relações amigáveis com blocos de significado, que depois podem ou não responder ao convite, para mim os traços dos deuses e deusas parecem estar claramente estar tão interligados com o tempo e com o espaço como qualquer outro produto da cultura. A sua experiência poderá ser diferente caso esteja alinhado com *teísmos mais explícitos. Mas se me pergunta a mim, são as pessoas que conseguem redigir a história, e portanto a maioria dos mitos também, que possuem a chave para este enigma. Mesmo os contos mais autênticos do lugar foram pelo menos uma vez revistos pelos que estão no poder. Por reis e pelos seus secretários. Por clérigos. Por homens em geral, muito embora, preferivelmente, somente os mais ricos e aptos.

A narrativa dos poucos cujos apêndices corporais lhes concederam o poder de moldar a história e o pensamento fez do Feminino um tabu. De facto, um dos muitos tabus que durante muito tempo condenaram os nossos corpos, o seu funcionamento e a sua intuição inata à vergonha e relegaram para a alteridade os doentes, os pobres, os estranhos, os estrangeiros, na verdade qualquer pessoa que não pertença à tribo. A tribo precisa de um Outro para sobreviver, para que não perca a sua identidade, e em última análise, o próprio poder que mantém de pé as muitas hierarquias.

Por definição, as estruturas cristalizadas não lidam bem com a fluidez. Estar em movimento implica escapar continuamente à ditadura das palavras e das ideologias. Quando se consegue dar um nome a algo (não negociado de antemão, lembre-se), essa pessoa está no controlo. O silêncio, no entanto, torna-o sempre desarmado. E essa terra prometida da alteridade torna-se rapidamente um alvo de rumores. Quem possui uma vagina torna-se um ser misterioso e de alguma forma perigoso; as suas conversas sobre úteros e ciclos mensais são consideradas “contos da carochinha”; e a maternidade torna-se um serviço regulado pelo Estado, em vez de se tratar antes de mais uma questão de escolha e amor. Nesse mistério reside o medo e a condescendência, uma guerra contra uma ameaça implícita à convenção e ao mundo tal como o conhecemos. É então que se queimam vivas as bruxas.

A alteridade torna-se então uma terra de deusas negras (onde até a sua pele as condena), o Yin frio e passivo para o Yang masculino.

A alteridade, porém, é na realidade uma corrente rica e profunda de crueza em carne-viva. Onde o género é desmantelado como a frágil peça de maquinaria que é, onde muitas culturas e tradições diferentes ganham vida, longe do domínio cruel do império. Onde a diversidade das capacidades corporais é abraçada como um reflexo do valor inerente do Ser. Onde a maravilha do corpo não precisa de ser disfarçada com posses muito menos estimulantes. Onde as perdas podem ser ganhos. Onde todo o nosso potencial está à nossa espera, tão temido como desejado. O potencial para a vida e para a morte, para dar forma e para destruir. Esta sombra, da qual Carl Jung costumava falar, reúne os despojos da nossa guerra sempre perdida contra o Self, como todos os muitos tesouros negligenciados pela nossa alienação e pela violência que perpetuamos sobre os outros.

“Esta sombra contém muitas cores”.

Independentemente do género, dentro ou fora do binário, sinto que a reconciliação com a Sombra consiste neste caminho de desaprendizagem, nesta luta persistente e inquieta com todos deuses guardiõe do tabu, até que capitulem um por um e, na morte, nos transmitam a sua sabedoria abundante. Ela implica a renúncia aos julgamentos inúteis, a denúncia das morais e doutrinas desumanas e o aprofundamento da empatia para com a minoria, para com o que é estranho, para com o Outro. A começar por si próprio. Implica deixar de lado as palavras e a violência no nosso discurso. A violência que existe quando nos arrogamos o direito de falar em nome, ou em vez daqueles cujas vozes abafámos. A começar pela própria Terra, sempre comunicante, sempre ignorada. Na solidariedade e na escuta activa residem a sabedoria e a voz da Deusa das Trevas.

Os mitos falam de uma união entre o Deus e a sua contraparte feminina. Sugiro que o Feminino, qualquer que seja a tonalidade da Alteridade reflectida em cada um de nós, é o maior revelador de quem somos, de onde viemos e de para onde regressaremos. A Alteridade recorda-nos esta identidade primordial que cada ser partilha, para além de todas as estruturas de opressão, desde muito antes da primeira divisão das tribos. No início, quando tudo era alegremente diverso e ao mesmo tempo um só. Trata-se de um poder que os governantes do mundo não nos podem retirar. O Sol não tem devir; é a Lua que passa por moções. E nesse movimento, toda a vida e toda a poesia, toda a alegria e dor, e até a própria verdade, a verdade para connosco próprios, torna-se manifesta.

A vida começa fora da nossa zona de conforto, dizem. Somente fora das nossas torres de marfim, fora das mentiras das convenções, de todos os armários, de todo o medo, com a violência e os muitos privilégios despedaçados, pode finalmente o nosso melhor Eu, o único Eu, brilhar. Dentro do caldeirão, todos os devires são incessantemente fabricados a partir de pulsões cruas, não-censuradas, enriquecidas com séculos de lutas e códigos subterrâneos como feitiços, a partir da criatividade única que vem de se ser o Outro. A Inspiração que advém de se viver a Deusa, donzela e vadia, mãe e guerreira, anciã e boba, caçadora e artista, orgulhosa dos seus saltos altos e barba cheia. O seu caldeirão tem o poder de dar vida e de a tirar, de construir e derrotar civilizações inteiras. O poder de fazer novas todas as coisas.