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Passemos às apresentações deste novo site.

Quem trabalha nas áreas criativas já terá decerto ouvido alguém dizer que nós somos os nossos piores clientes. Quando somos o nosso próprio cliente, não raro falta-nos a distância necessária para nos analisarmos enquanto produto. Um produto com um público-alvo e uma dada estratégia com vista a uma marca que, neste caso, consiste numa persona ou “máscara” profissional com as características e valores que escolhemos exibir ou, se necessário for, fingir até que dêem resultado. A tarefa complica-se quanto mais diversificados forem os interesses e as competências que nos caracterizam. E chega a ser quase impossível caso nos atrevamos a desafiar as normas do marketing pessoal e profissional porque, francamente, somos seres humanos e nem tudo acerca de nós precisa de ser um selling point.

A minha carreira como consultor atravessa várias competências, desde a escrita para publicidade à programação. Além disso, também escrevo poesia, desenvolvo artigos e palestras sobre espiritualidade telúrica, estou à frente de uma revista sobre temas druídicos, interesso-me por [algumas] terapêuticas alternativas e formas de divinação, e nos tempos livres ainda me ponho a investigar sobre assuntos mais mundanos, como a linguística ou a cultura pop. Eu podia ter optado por me esconder atrás de um panfleto com uma ou duas mensagens, como se estivesse a tentar caber num anúncio de 30 segundos. Mas a minha caminhada pessoal, que pretendo partilhar neste espaço, tem-me guiado numa direcção de cada vez maior autenticidade e vulnerabilidade. Mais importante que isso, já que estamos a discutir “marcas pessoais” e os valores que as caracterizam, muitos dos meus valores actuais estão em desacordo com algumas das melhores práticas das indústrias onde me movimento.

O mercado da comunicação premeia quem tem a capacidade de embelezar uma meia-verdade de forma a torná-la mais apetecível, as técnicas capazes de suscitar no indivíduo (encurralado no seu canto e reduzido a mero consumidor) toda uma série de inseguranças e necessidades que, ou não o afligiam antes, ou se limitam a reproduzir acriticamente as convenções e preconceitos da sua cultura. Cada mensagem publicitária se destina a um público com uma capacidade de atenção em acelerado declínio, e a abundância dessas mensagens, que hoje atravessaram em definitivo a barreira do consentimento, vem apenas contribuir para esse estrangulamento da atenção.

Os chavões da optimização para motores de busca favorecem a estabilidade e a compartimentação, como se ser imutável fosse sinónimo de credibilidade — e onde é que esses padrões nos têm levado até agora?… Dou por mim a perguntar-me se não haverá valor em criarmos espaços onde possamos ser nós mesmos, muito para além da nossa faceta mais lucrativa, e por isso, rígida. Espaços de crescimento e de mudança. Espaços de verdadeira criatividade, a desenrolar-se diante dos nossos olhos.

Num mundo onde até o meio digital se encontra cada vez mais retido em grandes ilhas de experiências proprietárias, sou a favor de de uma Web mais aberta e independente. Sou a favor do regresso às páginas pessoais, da possibilidade de sermos donos dos nossos próprios conteúdos, registados e alojados em formatos abertos, sustentáveis e portáteis. Prezo e anseio pela liberdade de interagirmos na maior rede mundial de conhecimento fora dos átrios hipervigilados dos “jardins murados” dos motores de busca e redes sociais, bem convenientes decerto, porém atrofiantes.

Numa época em que as guerras da informação conduzem a problemas cada vez maiores de transparência, não obstante a forma como nos venderam a nossa presença constante, 24 horas por dia, sob o olhar das câmaras, anseio por uma maior clareza, literacia e capacidade para o diálogo. Onde o credo da produtividade relega toda a subjectividade não-normativa para o espaço íntimo, alimentando a vergonha e o trauma como pedra angular das instituições sociais, espero poder manter espaços de abertura, franqueza e, inclusive, de cura colectiva.

Mesmo conhecendo as regras dos manuais da especialidade e os chavões que populam palestras e workshops nos chamados “festivais de criatividade”, dou por mim a recusá-las quando se trata do meu próprio espaço online, assinado com o meu nome no endereço. Recuso-me a tentar promover uma versão pronta, embalada e rotulada de quem sou. Recuso-me a acreditar que a minha presença no mundo se deve reger pelo dogma do perfeccionismo estéril e da produtividade ininterrupta.

Neste espaço digital, não quero que o código por detrás de cada página seja a única componente open-source. Pretendo que também o processo de desenvolvimento da minha pessoa e da minha presença no mundo aconteça de forma aberta e, espero eu, interactiva. Uma ferramenta de construção e desconstrução pessoal, partilhada com quem me lê.

Isto implica que pretendo escrever sobre uma diversidade de interesses que podem ou não estar ligados à minha actividade profissional corrente, mas que partilham os temas nucleares da presença, da autenticidade, da comunicação consciente. Por diversas vezes me arrependi de não ter onde reagir aos vários acontecimentos que marcam a nossa vida colectiva, um lugar onde pudesse inclusive sugerir novas formas de ver e intervir no mundo. Que esse deixe de ser um problema. Tudo isto fará parte deste site, tal como faz parte de mim.

Dizem também que é importante comportarmo-nos no mercado de acordo com o tipo de trabalhos que queremos atrair. A ser verdade, espero que esta página seja um preúncio de projectos mais sustentáveis, mais alinhados com a minha perspectiva sobre as indústrias criativas e com os valores que gostaria de ver promovidos no mundo.

A versão actual deste site surge depois de vários anos de estagnação, brevemente interrompidos por uma página HTML única dotada apenas de currículo e formulário de contacto. Além das tarefas que envolvem de forma mais directa a imaginação, também o lado técnico demorou mais tempo do que desejava, sobretudo devido a ter feito algumas experiências com as várias tecnologias ditas “do momento” antes de me ter decidido pelo stack actual (hei-de escrever mais sobre o assunto no futuro próximo, mas ele consiste simplesmente de HTML + CSS custom properties e SCSS gerados via Eleventy, com alojamento Netlify)).

Já migrei alguns artigos, anteriormente disponíveis noutras paragens, mas ainda há mais conteúdos a chegar que precisarão de um tratamento editorial mais refinado. Este site é uma obra em permanente construção, e que bom que assim é. Venha acompanhar-me nesta experiência.