Terra e Natureza

Um convite a fazermo-nos Casa.

E se a Canção do Mundo nos coloca no mesmo patamar que todos os demais seres, capazes de construir ou de causar dano e de viver as consequências nos seus respectivos mundos, quais as fronteiras dessa tal de “Natureza”?

Um dos alicerces da espiritualidade telúrica assenta no desenvolvimento de uma relação cada vez mais justa com a Terra que nos serve de casa. Mas, tal como escrevi noutra ocasião, penso que esta prática também nos convida a fazermo-nos Casa, tanto para quem nos rodeia como para a nossa própria individualidade.

Ou seja, uma relação justa depende dos valores fundamentais da hospitalidade e da reciprocidade. Damos porque recebemos constantemente e de diversas formas. Aprendemos a receber o que nos é devido para poder dar ainda mais.

Este cuidado essencial do mago que é também jardineiro não deixa de ser acima de tudo a inclinação básica de todos os seres. Existimos harmonicamente ao ritmo da Oran Mór — que tem tanto de morte como de vida, diga-se — desde que não o desaprendamos. Há tantos factores que nos conduzem a esse esquecimento: a integração numa sociedade desencantada e des-encantada; todas as estruturas económicas e produtivas que vêem a Terra e as pessoas, humanas ou animais, como meros inesgotáveis, as discriminações concretas e sistemáticas que atentam contra o nosso sentimento de segurança e de valor pessoal; as próprias dúvidas quanto ao sentido da Grande Canção.

E se confiássemos? E se nos fizesse mesmo sentido abraçar o arquétipo do mago e do jardineiro que cuidam da alma como do mundo em redor? Passaríamos a compreender as lutas de quem cuja voz ficou afogada pelo ruído de alguns intervenientes na Canção do Mundo. Teríamos mais urgência na preservação dos nossos solos, das nossas águas, do nosso ar, dos pensamentos e emoções, das vontades e dos sonhos que poluímos por ocasião do funeral das nossas infâncias. Teríamos mais atenção ao nosso corpo, esse eterno negligenciado a quem devemos tudo, desde os pequenos prazeres às maiores vaidades. Cumpriríamos enfim a solidariedade, porque a mesma Natureza onde se ouvem as vozes dos mitos nos fala pelos corpos diversos, ricos e invioláveis de todas as criaturas.

A Terra, essa, continuará no seu próprio percurso, capaz de regular todos os desequilíbrios e depurar-se de quaisquer parasitas, tal como sempre fez. A nós, aqui e agora, na intersecção dos nossos privilégios e opressões, com mais ou menos visitas idílicas a círculos de pedra e densas florestas, cabe-nos a escolha de entrar de facto no compasso, na dança de todos os dias, ou ficar à margem da própria vida.

“Antes de mais, sê um bom animal.”
— Ralph Waldo Emerson